André Timm
Vencedor Prêmio Off Flip 2018 e
Finalista Prêmio São Paulo de Literatura 2017
Foto: Felipe Ballin
André Timm é natural de Porto Alegre e radicado em Chapecó, SC, desde 2004. É autor de Insônia (2011). e Modos Inacabados de Morrer, romance finalista do Prêmio São Paulo de Literatura (2017) e publicado na Itália. Em 2018, venceu o Prêmio Off Flip, da Festa Literária Internacional de Paraty. Em 2020, publica seu segundo romance, Morte Sul Peste Oeste.

Depois do elogiado romance Modos inacabados de morrer, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura (2017), André Timm retorna à literatura com esta história comovente. Morte Sul Peste Oeste narra a história de Dominique Baptiste Monfiston, um haitiano que deixa seu país - uma terra arrasada por um violento terremoto e uma crise econômica que deixaram mais de 300 mil mortos - com destino ao Brasil. Já no primeiro capítulo Timm nos leva ao centro dessa viagem vertiginosa, com uma linguagem direta e provocante, apresentando o destino de um protagonista que se equilibra entre a avareza dos "coiotes" e a corrupção de funcionários públicos. Ao atravessar a fronteira norte, recebe uma proposta para trabalhar num grande frigorífico no Sul, destino de muitos imigrantes que chegam nas mesmas condições. Dominique é um exilado que deseja ajudar aos que ama, e que não puderam acompanhá-lo, a sobreviver. Paralela à saga de Dominique, conhecemos a história de Brigite, treze anos, que desde cedo conhece a brutalidade do ambiente dos que vivem à margem. Brigite é uma menina transexual, exilada do próprio corpo, submetida a um regime de abusos ao se ver obrigada a se prostituir pela própria mãe e a conviver com o seu namorado violento. Privada de acolhimento e afeto, tinha tudo para ser uma jovem amargurada, entregue que está ao meio hostil onde cresce. Mas, não, Brigite é dotada de uma extraordinária força para enfrentar as adversidades que lhe são impostas. São esses dois destinos tão distintos, e que guardam em si a voragem dos sobreviventes, que irão se encontrar de maneira surpreendente. Com rara habilidade, Timm traz para o centro da literatura brasileira contemporânea os que vivem à margem da nossa própria literatura. Ele, através de sua escrita precisa e elegante, dá voz a personagens que possivelmente encontramos em nossas cidades, mesmo que muitos finjam não ver, ou que ao serem vistos tenham a si destinados os piores preconceitos. Mas a Literatura, essa terra livre onde podemos viver muitas vidas e compartilhar emoções e sentimentos que comunicam a nossa humanidade, nos permitirá atravessar as suas vidas e para elas desejar muita, muita sorte.
Itamar Vieira Junior

Você sabe o que é ter treze anos, e vivenciar as asperezas da escola, e se apaixonar pela primeira vez, e ter um corpo que não lhe pertence completamente, que nem sempre obedece ou acomoda. Por isso, enquanto Santiago, o protagonista de Modos inacabados de morrer, não consegue se habitar de todo, premiado na loteria da vida com a inadequação extra da narcolepsia, nós, os leitores, vamos entrando na intimidade dessa juventude que todos encontramos em nós. Capturados pelo ritmo da narrativa, pelas delicadezas deste romance de formação e também pela escolha do autor, saborosa e ainda um tanto rara, de contar a história na segunda pessoa. Aqui, o livro bebe do Bildungsroman moderno e das narrativas contemporâneas que também elegem esta perspectiva narrativa, dialogando, por exemplo, com um dos melhores contos de David Foster Wallace de uma maneira bem íntima. Entranhados neste "você" que é outro e é nosso, somos carregados cada vez mais dentro da história, enquanto, para Santi, a excitação das novas experiências o arranca para fora de si. Chorar, sentir medo, nadar, até rir pode lhe roubar o controle, apagar sua luz. Pode também deixá-lo à mercê da narrativa dos outros, com suas violências. Com seu perigo. O entrelaçamento das vidas dos personagens vai se desvelando no tempo e nos modos do amadurecimento: devagar e veloz, e sempre com impacto. O autor renova a tensão na mesma constância e regularidade com que o mar lança suas ondas. Sem descanso. Saímos banhados, encharcados de vida
Moema Villela

Numa cidade apinhada de prédios, a insônia proporciona encontros furtivos nas janelas dos apartamentos. E, no relance desses olhares, histórias se constroem e expõem o que há de mais obscuro em uma madrugada. Num prédio em que ninguém dorme, a insônia proporciona concretude aos sonhos mais estranhos. Tal qual a lógica de um edifício, os enredos de Insônia se superpõem numa armação de intrigas que tem como base o cotidiano de pessoas que vivem juntas, mas não se conhecem. É no sutil encontro que existe em estar vendo e ser visto que as histórias se cruzam: por entre salas, corredores e elevadores, vemos o desvario de um compositor frustrado, o jogo bizarro de um seqüestro e vemos ainda outros acontecimentos que desafiam a memória e testam obsessões. Vemos e somos vistos, pois na madrugada dessas insônias, nossos pesadelos ganham cores sombrias e nossos temores se concretizam em situações que anunciam o desastre. Numa cidade apinhada de pessoas, estamos todos na vigília da vida, confusos entre a realidade e o sonho. Se os pilares sustentam o concreto, a vida sustenta absurdos – e justamente ao captar o que é efêmero e assustador, André Timm nos coloca frente a frente com a vida e desfecha: concreto, somente os edifícios. Entretanto, em meio a tantos olhares enviesados, encontros ao acaso, músicas e brigas que não se resolvem, Insônia também proporciona concretude à madrugada de nossos medos.
Mauricio de Almeida
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