André Timm
Vencedor Prêmio Minuano de Literatura 2021.
Vencedor Prêmio Off Flip 2018.
Finalista Prêmio São Paulo de Literatura 2017.

Foto: Felipe Ballin
André Timm é natural de Porto Alegre e radicado em Santa Catarina desde 2004. É autor de Insônia (2011), Modos Inacabados de Morrer (2017), romance finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, também publicado na Itália, e Morte Sul Peste Oeste (2020), vencedor do Prêmio Minuano de Literatura 2021. Em 2018, venceu o Prêmio Off Flip, da Festa Literária Internacional de Paraty.

Depois do elogiado romance Modos inacabados de morrer, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura (2017), André Timm retorna à literatura com esta história comovente. Morte Sul Peste Oeste narra a história de Dominique Baptiste Monfiston, um haitiano que deixa seu país - uma terra arrasada por um violento terremoto e uma crise econômica que deixaram mais de 300 mil mortos - com destino ao Brasil. Já no primeiro capítulo Timm nos leva ao centro dessa viagem vertiginosa, com uma linguagem direta e provocante, apresentando o destino de um protagonista que se equilibra entre a avareza dos "coiotes" e a corrupção de funcionários públicos. Ao atravessar a fronteira norte, recebe uma proposta para trabalhar num grande frigorífico no Sul, destino de muitos imigrantes que chegam nas mesmas condições. Dominique é um exilado que deseja ajudar aos que ama, e que não puderam acompanhá-lo, a sobreviver. Paralela à saga de Dominique, conhecemos a história de Brigite, treze anos, que desde cedo conhece a brutalidade do ambiente dos que vivem à margem. Brigite é uma menina transexual, exilada do próprio corpo, submetida a um regime de abusos ao se ver obrigada a se prostituir pela própria mãe e a conviver com o seu namorado violento. Privada de acolhimento e afeto, tinha tudo para ser uma jovem amargurada, entregue que está ao meio hostil onde cresce. Mas, não, Brigite é dotada de uma extraordinária força para enfrentar as adversidades que lhe são impostas. São esses dois destinos tão distintos, e que guardam em si a voragem dos sobreviventes, que irão se encontrar de maneira surpreendente. Com rara habilidade, Timm traz para o centro da literatura brasileira contemporânea os que vivem à margem da nossa própria literatura. Ele, através de sua escrita precisa e elegante, dá voz a personagens que possivelmente encontramos em nossas cidades, mesmo que muitos finjam não ver, ou que ao serem vistos tenham a si destinados os piores preconceitos. Mas a Literatura, essa terra livre onde podemos viver muitas vidas e compartilhar emoções e sentimentos que comunicam a nossa humanidade, nos permitirá atravessar as suas vidas e para elas desejar muita, muita sorte.
Itamar Vieira Junior

Você sabe o que é ter treze anos, e vivenciar as asperezas da escola, e se apaixonar pela primeira vez, e ter um corpo que não lhe pertence completamente, que nem sempre obedece ou acomoda. Por isso, enquanto Santiago, o protagonista de Modos inacabados de morrer, não consegue se habitar de todo, premiado na loteria da vida com a inadequação extra da narcolepsia, nós, os leitores, vamos entrando na intimidade dessa juventude que todos encontramos em nós. Capturados pelo ritmo da narrativa, pelas delicadezas deste romance de formação e também pela escolha do autor, saborosa e ainda um tanto rara, de contar a história na segunda pessoa. Aqui, o livro bebe do Bildungsroman moderno e das narrativas contemporâneas que também elegem esta perspectiva narrativa, dialogando, por exemplo, com um dos melhores contos de David Foster Wallace de uma maneira bem íntima. Entranhados neste "você" que é outro e é nosso, somos carregados cada vez mais dentro da história, enquanto, para Santi, a excitação das novas experiências o arranca para fora de si. Chorar, sentir medo, nadar, até rir pode lhe roubar o controle, apagar sua luz. Pode também deixá-lo à mercê da narrativa dos outros, com suas violências. Com seu perigo. O entrelaçamento das vidas dos personagens vai se desvelando no tempo e nos modos do amadurecimento: devagar e veloz, e sempre com impacto. O autor renova a tensão na mesma constância e regularidade com que o mar lança suas ondas. Sem descanso. Saímos banhados, encharcados de vida
Moema Villela

Numa cidade apinhada de prédios, a insônia proporciona encontros furtivos nas janelas dos apartamentos. E, no relance desses olhares, histórias se constroem e expõem o que há de mais obscuro em uma madrugada. Num prédio em que ninguém dorme, a insônia proporciona concretude aos sonhos mais estranhos. Tal qual a lógica de um edifício, os enredos de Insônia se superpõem numa armação de intrigas que tem como base o cotidiano de pessoas que vivem juntas, mas não se conhecem. É no sutil encontro que existe em estar vendo e ser visto que as histórias se cruzam: por entre salas, corredores e elevadores, vemos o desvario de um compositor frustrado, o jogo bizarro de um seqüestro e vemos ainda outros acontecimentos que desafiam a memória e testam obsessões. Vemos e somos vistos, pois na madrugada dessas insônias, nossos pesadelos ganham cores sombrias e nossos temores se concretizam em situações que anunciam o desastre. Numa cidade apinhada de pessoas, estamos todos na vigília da vida, confusos entre a realidade e o sonho. Se os pilares sustentam o concreto, a vida sustenta absurdos – e justamente ao captar o que é efêmero e assustador, André Timm nos coloca frente a frente com a vida e desfecha: concreto, somente os edifícios. Entretanto, em meio a tantos olhares enviesados, encontros ao acaso, músicas e brigas que não se resolvem, Insônia também proporciona concretude à madrugada de nossos medos.
Mauricio de Almeida
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